11 de janeiro de 2007

Memória cruel

Tenho andado esta semana toda a pensar se havia de postar ou não um dos acontecimentos mais marcantes de toda a minha adolescência. Optei pelo "sim"... já passaram tantos anos e a história, que a seguir vou recontar, é sobejamente conhecida. Tal como num dos meus posts anteriores, vou chamar as pessoas pelos nomes.

Vai ser preciso recuar ao ano de 1999. Tinha eu 16 anos... A Vânia, um mês e meio mais velha do que eu e a minha melhor amiga, ficou doente. Nunca tinha sido uma rapariga que vendesse saúde; desde a escola primária tinha sido uma criança muito frágil, de fraca constituição física, mas de uma doçura e de uma generosidade fantásticas. Crescemos juntas, estudámos juntas, tivemos os primeiros namoricos juntas, discutimos, trocávamos confidências... inseparáveis!

Assisti, embora relutante, à compra do seu primeiro maço de tabaco. Não consegui compreender porque é que era preciso refugiar-se no fumo, quando era tão frágil. Mas o namorado fumava e no grupo dele todos fumavam... era a justificação. Ela sabia que eu era contra; num ou outro momento desaparecia, mas eu sabia sempre onde é que ela estava escondida a fumar.

Chegou o 10.º ano... eu optei por Humanidades, ela foi para Desporto - turmas diferentes, a mesma escola secundária. Nos planos que fazíamos nos intervalos, ela iria para uma das Escolas Superiores de Leiria, e eu, apesar de andar confusa quanto ao meu futuro, não a queria abandonar. O meu Verão de 99 foi passado de forma diferente, numa Colónia de Férias: como estava mais crescidinha, o meu pai deu-me uma liberdade diferente e tinha um grupo de amigos fantástico. Passámos dias espectaculares, houve um desfile para eleger a "Miss Colónia" e eu tinha ficado em 2.º lugar... andava radiante. Acabou o Verão e eu fui a correr mostrar à Vânia a cassete de vídeo que provava o meu sucesso. Ela tinha um ar abatido. O novo ano lectivo iniciara. Ela começou por ir aulas. Entretanto, começou a faltar. A saúde deteriorara-se. Consultas e mais consultas. Idas ao Hospital Universitário de Coimbra. Deixei de a encontrar tão frequentemente. Dezembro chegou num piscar de olhos. A Vânia foi internada para estar sobre supervisão médica. Passagem de Ano... o grupinho da colheita de 1983 começou a combinar um dia para a irmos visitar. Dia 9 de Janeiro de 2000 no dia em que ela fazia 17 anos era o dia ideal. Comprávamos um urso gigante de peluche e íamos-lho oferecer. Ela foi transferida para Coimbra. Íamos na mesma... era só pedir aos pais para irem connosco de carro - não havia problema.

Dia 5 de Janeiro de 2000 - ainda não eram 8h da manhã e eu estava a sair de casa para apanhar o autocarro para a escola. Uma prima dela estava à porta de minha casa à espera que eu saísse. A Vânia morrera nessa noite. Como é que fui para a escola nesse dia? Não sei... o que os professores disseram nas aulas? Não faço a menor ideia. Só me lembro de ter chorado muito, agarrada à minha Directora de Turma, na altura em que ela me aconselhou a ir para casa. Depois, lembro-me do funeral... o primeiro a que fui em toda a minha vida. O que se passou no meio? São dois dias da minha vida dos quais nada recordo...

Nunca quis saber qual tinha sido a verdadeira causa da sua morte. É um pormenor que não quis, nem quero saber... porque a única coisa que tem algum interesse para mim é recordar o sorriso dela... igualzinho àquele que está na fotografia na parede do meu quarto!

Não queria, nem quero tornar o "Estrelices" numa montra dos momentos tristes da minha vida; por isso, vou tentar parar por aqui e voltar a ser a mesma Happy Star que conhecem...

3 estrelinhas:

Francisco disse...

Ao tomarmos conhecimento das experiências de vida de outros, por vezes damo-nos conta de que, afinal, aqueles momentos de dor não são exclusivamente nossos. Passei por uma situação semelhante à tua. A minha história não teve nem mais nem menos agravantes. De qualquer forma, o meu dia de aniversário, para além de servir para me aperceber que estou mais velho, marca também o aniversário da morte estúpida daquele que foi o meu melhor amigo. É com esta identificação que gostava de te dizer: Não sei quem é a "Happy_Star que todos conhecem"... mas identifiquei-me muito com a memória que esta "Happy_Star" aqui deixou.

Abraço

Alexandre disse...

Bom, Cristina, o texto está muito, mas muito bem escrito e o que contas é realmente dramático... incrível!

Há coisas que o tempo jamais apagará, fazes bem em conservar a foto dela no teu quarto - ela está a olhar por ti como tu tentaste olhar por ela quando era viva...

Beijinhos e bom fim-de-semana!

Cristina disse...

Obrigada pelas vossas palavras... é muito importante para mim saber que posso contar convosco. Confesso que este foi o post que mais me custou fazer. Foi quase um momento masoquista, exceptuando que não tive qualquer prazer com ele.

Francisco, o meu irmão tem algo em comum contigo: o nosso avô faleceu no dia dos seus 13 anos. Sempre que ele festeja o aniversário, a minha avó chora. Nunca sabemos se havemos de festejar com ele, ou consolá-la a ela... um misto de alegria e tristeza.

 

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